Belém do Pará – beleza para além da mesa
- knoppglauco2
- 20 de mar. de 2023
- 6 min de leitura

Há alguns anos, conhecer o norte do Brasil era algo que não passava pela minha cabeça. Meus interesses de viagem eram outros, minha visão de mundo era outra. O tempo passou, adquiri novas experiências e vivências, meus gostos e preferências mudaram. Eu mudei. Ainda bem!
Um dos principais impulsionadores dessa mudança, sem dúvida, foi a graduação em gastronomia, cursada entre 2020 e 2022. Além dos processos e técnicas de cozinha, aprendi a enxergar a comida para além do prato. Por trás de cada preparo há um emaranhado de vidas, humanas e não-humanas, trabalhos, histórias, relações, saberes, identidades, símbolos e afetos. Ecossistemas que fazem do prato uma síntese estética e cultural de um contexto muito mais amplo.
O curso de gastronomia, em vez “coagular o meu espírito”, como diria o sociólogo Max Weber, em virtude do rigor e da razão técnica e instrumental aplicados nas aulas de cozinha, desenvolveu em mim uma visão mais contextual e historicizada da relação do homem com o alimento e com a natureza. Fez com que meu olhar sobre os lugares e povos ganhasse outro viés. Hoje, vejo a comida para além da comida. A beleza além da mesa.
Daí, tornou-se impossível não enxergar com fascínio o norte do país, portador da imensidão e da riqueza da floresta e dos rios amazônicos, de modos de vida e de alimentos singulares. Não à toa, nossa primeira viagem de 2023 teve como destino a capital paraense!
Nosso primeiro impacto com a cidade foi ainda no avião. Perto da aterrisagem, fomos surpreendidos com as curvas deslumbrantes do rio Guamá que, pela janela, era impossível vislumbrar finitude. A grandiosidade amazônica dava seus primeiros sinais.

Rio Guamá visto do avião
Em solo paraense, ainda no aeroporto, fomos recebidos calorosamente pela Edilena e pelo Luiz, casal de amigos de longa data e que não víamos há anos. Estávamos bastante felizes por revê-los, e ficamos ainda mais com sua incrível hospitalidade. Em seu carro, os dois fizeram um tour conosco pela cidade, nos mostrando diversos pontos turísticos, falando um pouco sobre eles, parando em alguns para passearmos.
O brilho nos olhos e a voz efusiva escancaravam sua enorme paixão e orgulho da cidade, da cultura e das tradições locais, das belezas naturais e delícias gastronômicas da terra.
Não bastasse, nos levaram para uma verdadeira festa gastronômica no Point do Açaí, um ótimo e tradicional restaurante belenense. A Lu e eu olhávamos o cardápio, ao mesmo tempo em que dávamos aquela espiadinha básica nas mesas ao redor e no vai-e-vem dos garçons, admirando tamanha beleza dos pratos. Quanto mais olhávamos, mais dúvidas nos surgiam. Afinal, dava vontade de comer um pouco de tudo e, pelo tamanho das porções, a missão parecia ser impossível!
Percebendo nossa indecisão, Edilena e Luiz tomaram as rédeas da situação e escolheram alguns preparos para nos iniciar na gastronomia paraense. Apesar do nome, lá no Point do Açaí é possível comer um pouco de tudo o que diz respeito à comida típica. Comemos desde as iscas de pirarucu frito, passando pelo delicioso filé de filhote no tucupi com arroz de jambu, filé de pescada amarela e maniçoba. Não podia faltar, é claro, a tigela de açaí (olha ele aí!) com farinha de Bragança e tapioca flocada.
Falei que a missão de “comer um pouco de tudo” parecia impossível, né? Bem, parecia...

Filé de filhote no tucupi com arroz de jambu

Filé de pescada amarela

Maniçoba

Açaí com farinha de Bragança e tapioca flocada
Porções extremamente generosas, comidas muito bem-preparadas, bom atendimento, ambiente familiar. Tudo perfeito! Acham que acabou?
Não bastasse, os generosos anfitriões nos levaram à pulsante Estação das Docas, à beira do belíssimo Rio Guamá (aquele que vimos do avião), de onde é possível assistir a um espetacular pôr-do-sol.



Lá, fizeram-nos provar os deliciosos sorvetes da Cairu, famosa sorveteria local, conhecida pelos sabores amazônicos empregados em seus produtos. Na ocasião (em outro dia, retornamos para provar novos sabores), provamos os de castanha-do-Pará e de bacuri. O primeiro é feito com a castanha fresca, cujo sabor é diferente (e bem mais interessante) da versão que nos chega aqui no sudeste, torrada. O segundo é de uma fruta amazônica de sabor e aroma inexplicáveis, pela qual me apaixonei!

Sorvete de castanha-do-Pará fresca

Sorvete de bacuri
Depois disso tudo, ainda nos deixaram no hotel e, no dia seguinte, disponibilizaram seu carro particular, com motorista à disposição (o simpático Alcimar!), que nos guiou pela cidade, nos levou à Ilha de Combu... Incrível, né?!!!

Ao fundo, o Mercado Ver-o-Peso e as embarcações que trazem pescados frescos, diariamente
Passeio de barco saindo de Belém em direção à Ilha de Combu

Passeio de barco saindo da Ilha de Combu em direção à Belém
Ao longo de 5 dias, foram muitas (e muito boas!) as nossas experiências na capital paraense, e falarei mais sobre elas nos próximos posts. Antes, porém, quero contar outro fato delicioso que aconteceu conosco.
Poucos dias antes de terminar nossa viagem por Belém, toda vez que comentávamos sobre algum ingrediente da culinária local que pretendíamos levar para Belo Horizonte, Edilena falava: “eu tenho lá em casa, vou dar para vocês”. Como nós viajamos cada um com apenas uma mala de mão, nossa intenção era ser bem seletivo nas nossas escolhas. A vontade era de levar o Pará inteiro para casa, mas isso não seria possível.
Na véspera de irmos embora, Edilena nos avisa que separou (e que deixaria na porta de nosso hotel) uma “caixinha de isopor”, com comidas e ingredientes paraenses congelados. Bem, quando ela nos enviou a foto da tal “caixinha”, quase caímos pra trás! kkkk

Na caixa tinha maniçoba (que ela mesma preparou), pirarucu seco, polpas de açaí e bacuri, filhote, pupunha, jambu, chicória do Pará, tucumã, castanha-do-Pará fresca, tucupi, pimenta-de-cheiro / pimenta-cumari e queijo (de búfala) da Ilha de Marajó. Fora da caixa, ainda ganhamos farinha de Bragança, farinha de tapioca flocada e maravilhosos (!!!) bombons de cupuaçu, feitos artesanalmente por um familiar dela.

Alimentos paraenses que vieram na caixa de isopor
Ficamos surpresos, extremamente felizes e corremos para comprar bagagem extra, junto à companhia aérea! Mas uma questão rondava a nossa cabeça: como faremos para conservar esses alimentos até o horário de nosso voo, às 4:50 da manhã? No frigobar do quarto, os alimentos não cabiam. Pedi ao gerente para deixar no refrigerador da cozinha do hotel, mas tive meu pedido negado. Desespero total!
Sabe qual foi a solução dada por nossa amiga? “Não deixarei mais a caixa aí hoje. Às 3:00 (da madrugada!) estaremos eu e Luiz na porta do hotel, aguardando por vocês, para levá-los ao aeroporto. E levo a caixa junto”. Dá pra acreditar? E assim foi!
Confesso que ficamos bastante sem jeito com todo esse tratamento VIP, mas nossos amigos sempre repetiam a mesma frase: “é cultural. Se não for desse jeito, não é o paraense”.
Quando Edilena falou que nos daria a caixa de isopor com um monte de comida congelada, ficamos preocupados com as implicações para o despacho, pois nunca havíamos tido essa experiência. Ela logo tratou de nos tranquilizar, afirmando que todo paraense faz isso quando sai do seu estado. De acordo com ela, “a gente sente falta da comida paraense e, pra onde a gente vai, a gente leva. Vocês vão ver que no aeroporto vai ter um monte de gente com caixinha de isopor para despachar. É tudo paraense, com comida paraense”.
Dito e feito! No aeroporto, o que mais vimos foi caixa de isopor sendo despachada. No guichê de despacho, quando o atendente perguntou qual era o conteúdo da caixa e respondemos que era comida paraense, que inclusive nós ganhamos de presente de uma amiga, e que continha maniçoba que ela havia preparado, seu semblante logo mudou. Da cara fechada e de sono justificáveis pelo horário, logo passou a um sorriso largo, seguido por uma fala contundente: “Nossa, seria uma ofensa se você não levasse isso!” Pergunta se o funcionário paraense da cia aérea ficou feliz? Pois é, imagina nós!
Um detalhe: na hora da pesagem, descobrimos que em nossa “caixinha” havia 15 kg (isso mesmo, Brasil, QUIN-ZE QUILOS!) de comida paraense! Uma caixa repleta de amor e muitas memórias de uma viagem inesquecível!
Todo esse cuidado conosco me fez refletir e atentar para a forma como o paraense se relaciona com a sua terra e com sua comida.
Seja na “caixinha” de comida da Edilena e em todos os gestos de cuidado dela conosco, seja nos mercados, na Ilha de Combu, nos restaurantes e outros lugares que frequentamos, e até mesmo nas conversas com os funcionários do aeroporto, ficou perceptível que o paraense tem uma relação de amor, orgulho e respeito com sua cultura, sua comida e seu território.
Neles, a cada interação, percebi a mais genuína expressão de felicidade quando demonstrávamos interesse por saber mais sobre os ingredientes nativos, seus modos de cultivo e preparo, os instrumentos típicos empregados, entre tantas outras curiosidades.
Quando o paraense faz questão de carregar consigo (ou nos dá de presente) a sua “caixinha” de comida típica, pra onde quer que vá, se está levando ali muito mais do que comida. São histórias, memórias, relações afetivas e de trabalho com sua terra, carregadas de amor, orgulho e respeito.
Para mim, é aí que está a maior entre as inúmeras belezas do Pará.
É beleza que chega à mesa, mas que está para além dela.




Faltou dizer: amei o “trocadilho” do título!
Ahh amei demais ler sobre essa viagem! Que amores são a Edilena e
o Luiz viu 😍 e que delícia foi essa experiência (afirmo que foi, pq pude senti-la)!!! Que venham mais aventuras pelo norte do país, e que possam nos trazer e fazer sentir tudo que vivenciam, assim como o fez neste post 👏🏽👏🏽