Feijão, angu e couve. E mais que isso.
- knoppglauco2
- 11 de mai. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de mai. de 2023

Eduardo Frieiro, na célebre obra Feijão, angu e couve, de 1966, faz um ensaio histórico sobre a cultura alimentar das Minas Gerais. Mais do que definir a existência da culinária mineira a partir da tríade de alimentos que dá título ao compêndio, Frieiro identificou os hábitos alimentares e os modos de comer dos mineiros.
Volta e meia, quando minha sogra prepara um prato típico da culinária mineira, ou quando vou à Varginha, à casa da avó da minha esposa (Dona Maria, no auge de seus 95 anos e muita prosa boa), me pego a observar a forma como essa cozinha se expressa não só pela comida, mas também pelas sutilezas dos gestos, pelos utensílios e por toda a atmosfera ali presentes.
A ampla cozinha (o maior cômodo!) de uma casa com alpendre e horta no terreiro; as panelas de ferro, barro, pedra-sabão e alumínio batido (inox, o que é isso?); a faca de lâmina reta, lisa e enferrujada; as texturas dos paninhos bordados à mão, por dias a fio; os pratos duralex sobre a mesa; o barulho do entra-entra (ninguém sai - e chega mais!) de gente que vai chegando e se amontoando em torno da mesa; e o cheiro da queima do fogão, compõem a cena desse viver-culinário diário.
Toda essa manifestação estética da vida cotidiana, experimentada multissensorialmente e ativamente de forma interessada(!), de tão corriqueira, muitas vezes passa quase despercebida pelos sentidos de quem dela participa diariamente.
Numa ida recente à Varginha, lá na casa da vovó Maria, me dei conta do quanto a culinária, essa arte dos povos – ou quase isso, pois nos permite experimentar o belo e o sublime, tanto quanto as artes "formais" –, é uma linguagem tão expressiva e, ao mesmo tempo, tão sutil; aparentemente tão simples, mas tão complexa, devido ao emaranhado de elementos estéticos portadores de significados, histórias e afetos.
É nessa cozinha do interior de Minas, de casa de vó, de alpendre e terreiro, que vejo se materializarem diversos trechos do livro do Frieiro. É como se saltassem da obra direto para a mesa. É lá que experimento, da forma mais pura, esse jeito de ser-comer-viver-cozinhar mineiro.
É nela que, no fluxo do trança-pratos da refeição, observo as mãos dóceis e desgastadas pelo tempo (e pelo esmero na cozinha), em gestos delicados, a servir-se do feijão (preparado na panela de alumínio batido), do angu (frio, firme e sem sal, bem típico) e da couve (da horta do quintal, cortada fininha, na faca de lâmina reta, lisa e enferrujada), no pratinho duralex.

E mais que isso. É nessa cozinha, com sua estética singular, que experimento o belo. Nela, me conecto com a vida, sinto: vejo sentido.




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