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O gestual na cozinha e a couve nossa de cada dia.

  • Foto do escritor: knoppglauco2
    knoppglauco2
  • 17 de mai. de 2023
  • 2 min de leitura

Em um post mais antigo, abordei o conceito de cozinha sob a ótica dos gestuais e dos artefatos.


Agora, mais uma vez, retomo o assunto.


Gestuais são formas de linguagem que possibilitam a comunicação. O gesto, como se sabe da história, antecede a palavra. É o corpo em ação, o corpo que fala.


E na cozinha, os gestuais empregados nos preparos de receitas, muitas vezes, comunicam simbologias que são transmitidas entre gerações. Por vezes, são partes de um conjunto ordenado de movimentos e atos ritualísticos, conectando-se ao sagrado. E, mesmo no terreno do profano, os gestuais realizados em determinados contextos, sob determinadas circunstâncias, constituem identidades e se tornam expressão singular de um povo.


Podemos observar isso no modo de fazer o acarajé, cuja originalidade decorre não só do uso de certos ingredientes, como também de vestimentas, artefatos e gestuais específicos. Tudo é repleto de simbolismos e o preparo é vinculado ao candomblé, pois é oferenda às divindades. Memória, religião, ancestralidade e identidade cultural estão em cena. Gestual, nesse caso, é sobretudo cultura.


A importância do gestual também fica bastante evidente quando tentamos reproduzir uma receita. Por vezes, o pão não alcança a textura desejada porque não soubemos empregar adequadamente o gestual de determinado tipo de sova. Gestual, nesse caso, é técnica.


Mas o que me fez trazer o assunto à tona, de novo, foi a couve nossa de cada dia. Como assim, Glauco? Explico!


Recentemente, recebi um vídeo por uma colega das redes sociais, a @bel.cugola, no qual seu cunhado está cortando couve. Ele, Sr. Geraldo Heleno (@helenogeraldo), de Maripá de Minas (MG), adota um gestual bem característico do interior do nosso estado no corte desta hortaliça: sentado, segurando o maço de couve - enrolado e bem ajustado - em uma mão; e, sem apoio de uma tábua, com a outra mão, vai raspando a lâmina da faca na face do rolo, com um tabuleiro por baixo (mas poderia ser uma bacia, o que é o mais comum), no qual as tiras do vegetal, beeem fininhas, vão caindo.


Detalhe que a Bel me contou: foi o próprio Sr. Geraldo que fabricou artesanalmente o seu instrumento de trabalho culinário, a faca. Magnífico!


Nesse caso, o gestual é cultura e técnica.


Quem também “pica” a couve desse jeito, com esse mesmo gestual, é a vovó Maria (já falei dela aqui no blog), de Varginha (MG). Com seus 95 anos, ela corta a couve tão finamente que coloca muito marmanjo que se diz cozinheiro – como eu – no chinelo.


Agora, cá entre nós: você consegue picar, à mão, a couve assim, tãaaao fininha? Sinceramente, eu não consigo! E olha que eu uso tábua para apoiar, faca não sei das quantas...


O segredo está no gestual! Por isso mesmo, precisamos preservá-lo.


Só assim para continuarmos comendo, por gerações, a nossa amada couve picada tão fininha.


Deus salve a rainha!

Couve nossa

De cada dia

Picada fininha

Com esse gestual tão típico

Da nossa mineira cozinha.

 
 
 

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